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Favela é Moda ganha XIII Prêmio Pierre Verger da Associação Brasileira de Antropologia

Entre os dias 29 de outubro e 6 de novembro ocorreu a 32ª Reunião Brasileira de Antropologia. Durante a realização da 13ª edição do Prêmio Pierre Verger de Filme Etnográfico, o filme Favela é Moda (2019), dirigido por Emílio Domingos, levou o primeiro lugar da competição na categoria longa-metragem!

Artigo sobre “Favela √© Moda” e trilogia do corpo, por Marco Antonio Gon√ßalves

Favela é moda: corpotética e cinema de compromisso 

por Marco Antonio Gonçalves (1)

Favela √© moda¬†d√° continuidade a uma s√≥lida constru√ß√£o, proposta e realizada por Emilio Domingos em seus dois longas metragens anteriores¬†‚ÄstA Batalha do Passinho¬†e¬†Deixa na R√©gua¬†‚Äď, constituindo assim a trilogia definidora de um estilo consistente e arrojado de se produzir cinema. Este estilo salienta dois modos conceituais inovadores no cen√°rio do document√°rio contempor√Ęneo que nomino, aqui, como¬†corpot√©tica¬†e¬†cinema de compromisso.

O conceito de¬†corpot√©tica (corpothetics),¬†formulado pelo o antrop√≥logo visual¬†Christopher Pinney (2), leva em conta a ordem do sens√≥rio, do corporal que ao conectar corpo e imagem expressa a experi√™ncia corp√≥rea como totaliza√ß√£o est√©tica produtora de modos de ser e estar no mundo.¬†O passinho,¬†a dan√ßa, o movimento, √© uma mimese que nos faz aceder a uma conceitua√ß√£o de m√ļsica, de som que se cristaliza em pura imagem.¬†Deixa na r√©gua¬†engendra uma est√©tica do cabelo, do¬†‚Äėfazer a cabe√ßa‚Äô¬†em sentido literal e figurado, nos remetendo a formas de socialidade que, ao instituir um espa√ßo de troca de deriva√ß√Ķes corporais, centra no corpo a emula√ß√£o e cria√ß√£o de raz√Ķes e pr√°ticas culturais.¬†Favela √© moda,¬†mais uma vez, reinventa uma corporalidade apoiada em gestos, performances, conhecimentos.

Favela √© moda¬†nos apresenta o processo de se tornar modelo, o que implica em modelar corpos, modalizar sentidos, modular afetos. Esse processo de constru√ß√£o de corpos-modelos precipita a forma√ß√£o das pessoas/personagens uma vez que, nesta condi√ß√£o, s√£o capazes de transformar sua pot√™ncia corporal/sensorial em cr√≠ticas que p√Ķem em cheque as m√ļltiplas representa√ß√Ķes naturalizadas sobre seus corpos, sobre a favela. Esta reflexividade gera, assim, desterritoraliza√ß√Ķes, desidentifica√ß√Ķes, deshistoriza√ß√Ķes que desencadeiam, por sua vez, novas historiciza√ß√Ķes, outras identidades e percep√ß√Ķes territoriais. Reconta-se, assim, uma hist√≥ria que se inicia com corpos negros em navios negreiros que cruzaram o atl√Ęntico e que, uma vez transplantados, se modelam¬†pela luta e resist√™ncia. Corpos-modelos contempor√Ęneos, ao tomarem como modelos os corpos escravos, podem se reapropriar de territ√≥rios cotidianos, da ‚Äėcorreria‚Äô do dia-a-dia (dos transportes p√ļblicos, de ruas cheias de camel√īs) por meio de uma interven√ß√£o que afirma um lugar de pertencimento e identidade coletiva.

Assim, ser modelo √© uma autoconstru√ß√£o da pessoa, juntar suas partes, hist√≥rias, identidades. As pessoas/personagens recortam revistas de moda, produzem uma¬†colagem.¬†Cortam, montam, justap√Ķem peda√ßos de pap√©is que se insurgem contra¬†uma¬†est√©tica- dominante. Tesoura e cola instauram um novo padr√£o, est√©tica outra de peles, corpos, cabelos, formas, roupas. Da¬†Vogue¬†se constr√≥i uma nova voga, um estilo. Apropria√ß√£o/usurpa√ß√£o fenom√™nica, subjetiva e sociol√≥gica. Retornamos, assim, ao momento inaugural fundador de uma¬†ag√™ncia,¬†quando J√ļlio C√©sar inicia seu estudo de moda ainda como porteiro que, ao recolher o lixo do pr√©dio, achava as revistas de moda descartadas e delas fazia uma leitura¬†favelizada,¬†precursora de seu empoderamento, revelando uma inten√ß√£o em produzir o que define como¬†moda de resist√™ncia.

Favela √© moda¬†aborda quest√Ķes que est√£o na ordem do dia, na pauta do capitalismo hegem√īnico-normativo como¬†empreendedorismo,¬†sucesso,¬†competitividade,¬†autoestima,¬†autoconfian√ßa. Por√©m, de um ponto de vista radicalmente distinto. Tornar estas quest√Ķes cr√≠ticas transforma a opress√£o em empoderamento. Esta perspectiva inovadora √© expressa por J√ļlio C√©sar no ponto de partida do filme ao afirmar que n√£o quer ser uma ONG e muito menos um projeto social, quer ser empresa de moda.¬†Favela √© moda,¬†aqui, redobra seu sentido, ao¬†favelizar¬†no sentido de reinterpretar, de se apoderar do pensamento capitalista contempor√Ęneo, da¬†Economia, as/os modelos desconstroem estere√≥tipos, preconceitos, afirmando-se, portanto, como sujeitos, dotados de inten√ß√Ķes, a√ß√Ķes, planos. √Č da perspectiva da¬†faveliza√ß√£o¬†que os personagens modelam seus corpos e que se tornam, simultaneamente,¬†modelos¬†para si mesmos e para outrem. Dotados de subjetividade s√£o, na condi√ß√£o de¬†modelos,¬†capazes de produzir atrav√©s da cr√≠tica social influentes reflex√Ķes sobre o mundo de um ponto de vista situado, definitivamente, na favela que passa a ditar a moda, a nova tend√™ncia, um ousado estilo de pensar. Esta √© a¬†empresa, o¬†empreendimento, o intento de J√ļlio C√©sar com a forma√ß√£o da ag√™ncia de modelos, a Jacar√© Moda, que reverbera novos corpos, novas vozes, novas caras oriundas das chamadas periferias do Rio de Janeiro.

Camila ecoa esta modeliza√ß√£o:¬†‚Äúquando voc√™ se olha no espelho e diz… eu posso tanto como qualquer outra pessoa… n√≥s estamos equiparados, n√£o tem nada que eu deva¬†a eles‚ÄĚ.¬†Simetriza√ß√£o de uma rela√ß√£o. Moda, nesta nova configura√ß√£o, forma um¬†pensamento, expressa m√ļltiplos efeitos no mundo. Clariza chama a aten√ß√£o para a import√Ęncia do conceito¬†gambiarra¬†enfatizando que √© menos falta que virtude. Constitu√≠do e constituinte da est√©tica da favela, torna-se efeito, revira os sentidos e os lugares estabelecidos.

O conceito de¬†corpot√©tica¬†provoca, pela via do sens√≥rio, a n√£o separa√ß√£o entre a imagem e o observador, entre aquele que filma e o que √© filmado, o que p√Ķe em relevo uma¬†rela√ß√£o¬†e n√£o limites, fronteiras entre o eu e outro. Esta¬†rela√ß√£o, sua especificidade, propicia o¬†compromisso.¬†Compromisso¬†com pessoas/personagens constru√≠dos no/pelo/com o filme. Esta √© a partida conceitual deste estilo saliente que engendra o processo de realiza√ß√£o de Emilio Domingos: um engajamento com pessoas/personagens e, sobretudo, com seus devires imag√©ticos.¬†Cinema de compromisso¬†parte, assim, de pressupostos essenciais capazes de precipitar regimes visuais que se apoiam em processos de simetriza√ß√£o e equival√™ncia que ao levarem, em toda a sua radicalidade, o ‚Äėoutro‚Äô, o ‚Äėfilmado‚Äô, √† s√©rio, dissolvem os grandes divisores, as oposi√ß√Ķes sujeito/objeto, n√≥s/eles, eu/outro.

O¬†compromisso¬†√© aquilo que antecede, que precede conceitualmente, o projeto f√≠lmico ou a¬†mise-en-scene.¬†Compromisso¬†n√£o deve ser confundido com √©tica ou partilha numa rela√ß√£o com os filmados, conceitos h√° tempo conhecidos pelo document√°rio¬†moderno, pelo menos desde o cinema de Jean Rouch(3).¬†Compromisso¬†ao transcender estas¬†supostas divis√Ķes, escapa de um lugar de realiza√ß√£o que se concentra em¬†‚Äėencontrar um filme‚Äô,¬†‚Äėproduzir uma¬†mise-en-scene‚Äô,¬†‚Äėmapear¬†conflitos‚Äô,¬†‚Äėinstituir¬†dramas‚Äô,¬†‚Äėelencar¬†problemas‚Äô, ‚Äėprecipitar cenas‚Äô, termos que¬†s√£o lugares comuns nas realiza√ß√Ķes documentais.¬†Compromisso¬†n√£o √© condescend√™ncia, voluntarismo, filantropia. √Č pressuposto de que a¬†Favela √© moda,¬†modula uma ontologia, estrutura princ√≠pios organizat√≥rios transformadores de sentido.¬†Compromisso¬†√© operar a l√≥gica f√≠lmica atrav√©s de uma simultaneidade de corpos/afetos/intelectos em que a distin√ß√£o entre imagem e observa√ß√£o n√£o se institui, n√£o tem rendimento.¬†A frase de Emilio Domingos proferida sobre seu filme ao jornal¬†O Globo, na estreia do¬†Favela √© moda¬†no Festival do Rio, ecoa este sentido de¬†compromisso: ‚ÄúO que os personagens falam ali √© realmente o¬†que eu quero¬†dizer‚ÄĚ.¬†Realizar um¬†Cinema de Compromisso¬†√© instituir esta possibilidade de coincid√™ncia de perspectivas, de precipitar quest√Ķes em que n√£o s√£o necess√°rias explicita√ß√Ķes de um lugar de fala, problematiza√ß√Ķes sobre a¬†alteridade, reflex√Ķes sobre a¬†diferen√ßa¬†enquanto categoriais definidoras da condi√ß√£o de realiza√ß√£o do document√°rio moderno situado no plano, sobretudo, de imagens contradit√≥rias. O¬†compromisso¬†se realiza em outra dimens√£o, na ordem do afeto, do emp√°tico, na coincid√™ncia de perspectivas, nos acordos firmados. O¬†compromisso¬†tomado como dispositivo, como modo pr√≥prio de realizar, nos d√° a ver um regime imag√©tico constitu√≠do pelo transbordamento afetivo c√™nico em que pessoas/personagens manifestam e revelam, tamb√©m, seu¬†compromisso¬†a partir da infraestrutura dos afetos, atrav√©s de seus corpos.¬†Cinema de Compromisso¬†√© o que define este potente estilo que precipita na tela a sincronicidade dos afetos entre a realiza√ß√£o e os filmados expressando a delicadeza de um encontro¬†compromissado¬†que se manifesta pela aposta minimalista da¬†qualidade relacional, capaz de construir m√ļtua inteligibilidade ao inv√©s de produzir espa√ßo para contradi√ß√Ķes e paradoxos. O dispositivo do¬†compromissar¬†vai muito al√©m dos filmados e do realizador. Irradia-se para os espectadores que, ao final da sess√£o, est√£o¬†compromissados¬†com J√ļlio, Renan, Giorgia, Caio, Clara, Pilar, Gabriel, Lucas, Clariza, Narlan, Raquel, Camila, Mariane, Helena, Hanna, Karina, Rayane, Cesanne, Vitoria, Ricardo, Daniel, Micaela, Tamara, Pedro, Gomez e Matheus. Todos juntos, agora¬†compromissados, acedem √† perspectiva de que¬†Favela √©, literalmente,¬†moda:¬†modos de agir, viver e sentir coletivos.

 

(1) Professor Titular de Antropologia do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do CNPq.

(2) Pinney,¬†Christopher. 2004 ‚ÄúPhotos of the Gods‚ÄĚ: The Printed Image and Political¬†Struggle in India.¬†Londres, Reaktion Books.

(3) Ver Gonçalves, Marco Antonio. O Real Imaginado. Etnografia, cinema e surrealismo em Jean Rouch. Rio de Janeiro, Topbooks, 2008.

Favela √Č Moda no Festival do Rio

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Ap√≥s quatro anos de trabalho para levar essa hist√≥ria √†s telas, o document√°rio Favela √Č Moda dirigido por Em√≠lio Domingos, foi selecionado para a Mostra Competitiva de Document√°rios da Premi√®re Brasil 2019 do Festival do Rio l Rio de Janeiro Int’l Film Festival e ter√° sua estreia dia 13 de dezembro (sexta) no Esta√ß√£o Net G√°vea, √†s 19h.

Agradecemos a toda equipe, as pessoas que acreditaram, ao pessoal da Jcré Facilitador e da Silva Produtora.
Foto do Francisco Proner com o modelo Caio Guimar√£es.

Confira a programação do Festival do Rio aqui.

Nova identidade visual da Osmose Filmes

Nasceu!

A Osmose Filmes está em transformação. Finalizamos esta semana o Processo de Branding com a Ana Cotta, Mariana Albuquerque e Isabella Baptista. Foi realizado um diagnóstico da Osmose, a nova Plataforma de Marca, Tom de Voz e nova Identidade Visual.

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Esse ciclo de encontros fez parte do período de incubação da Osmose Filmes no RJ Criativo, um programa da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro que oferece suporte para empreendedores, além de fortalecer redes e iniciativas na área da Economia Criativa.

Documenta-se Cineclube

Produzido pela Osmose Filmes, o Documenta-Se Cineclube surgiu a partir do desejo de divulgar filmes do gênero documentário e criar um espaço de reflexão sobre este universo do cinema.

No m√™s de novembro, nosso encontro ser√° 26/nov √†s 18h no MIS / Museu da Imagem e do Som, sede da Pra√ßa XV, e o document√°rio que vamos assistir √© “Torre das Donzelas” (2019) de Susanna Lira. Ap√≥s a exibi√ß√£o teremos debate com presen√ßa da diretora.

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Saiba mais sobre a sess√£o aqui.

DEIXA NA R√ČGUA NA MOSTRA ESPELHO COLORIDO

S√°bado (12/10) come√ßa a Mostra ‘espelho colorido’ Arte Core 2019!
No primeiro dia vai ter sess√£o do Deixa Na R√©gua e o diretor Em√≠lio Domingos estar√° presente na mesa O FUTURO √Č AGORA.

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Confira abaixo a programação da mesa abaixo:
13h – 13h30 ‚ᥠAfeto – Gabriela Gaia + Tain√° Medina
13h30 – 14h ‚ᥠTecido Sigilo – L√ļcio Jota
14h – 15h30 ‚ᥠDeixa Na R√©gua – filme
15h30 – 17h ‚ᥠTalk sobre moda, corpo e espa√ßo com Em√≠lio Domingos, Luc√≠olo Jota, Juliana Ara√ļjo, G√©ssica Justino e Clariza Rosa.

Veja a programação completa aqui.

SESSÃO ESPECIAL DO DOCUMENTA-SE CINECLUBE

No m√™s de agosto teremos uma sess√£o especial no IFCS – Instituto de Filosofia e Ci√™ncias Sociais da UFRJ. O document√°rio que vamos assistir¬†√© o “Acalme Esse Cora√ß√£o Inquieto” (2013, 101min) de Roberto Minervini.

Após a exibição teremos debate com o convidado Marco Antonio Gonçalves (Doutor em Antropologia Social), junto ao nosso debatedor residente, Simplício Neto (diretor, roteirista, pesquisador e professor de Cinema na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Academia Internacional de Cinema e na ESPM Rio), mediado por Emílio Domingos (cineasta, cientista social, pesquisador, roteirista, produtor e sócio-diretor da Osmose Filmes)

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Data: terça-feira, 27 de agosto
Hor√°rio: 18h – 21h
Local: Largo S√£o Francisco de Paula, 1, na Sala Evaristo de Moraes Filho, n¬ļ 109 – Centro.
Rio de Janeiro – RJ

ENTRADA FRANCA

Saiba mais no evento Documenta-se Cineclube “Acalme Esse Cora√ß√£o Inquieto” – no IFCS